segunda-feira, 6 de julho de 2020

VERSOS AO DESERTO


 Lanhado n’alma, a praz-me o enleio da lama,

Como uma santa segredando consoladora,

O espírito caído, prole podre e morte civil

E podre aos olhos viúvos da mãe pecadora

Esfinge da anarquia, ostra dos palácios ocos;

Ah! Themis, fina-flor, maldita sedutora


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Está vendo aquela pobre infeliz

Que o tempo lhe ofereceu graves danos,

Amou demais teve tudo o que quis

Na alvorada fértil daqueles anos.

Porém, ao lembrar-se da mocidade

Vem-lhe ao peito monstruosa saudade

Da época prospera e cheia de graça

Aos poucos ver o seu mundo morrendo

Chorando por dentro ouve alguém dizendo

“Já foi bonita essa mulher que passa


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Quando o justo se aliena na esquina

A verdade se sente desnudada

Com a vergonha exposta na calçada

Do colendo que a loucura domina.

A pena que condena não doutrina

E nem doutrina tão pouco ao que pune,

Porém, lhe outorga uma carta de imune

Aos vícios latentes na sentença

Da lei que não quer ver a diferença

Quando se quer deixar o rico impune.


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Eu não tenho histórico de atleta

E nem preciso de amigos que o tenha,

Minha vida não é palco pra resenha

Á gente que se vê como profeta.

A razão com saúde se completa

A saúde sem razão é sem futuro

Nem é sábio se lançar no escuro

Desafiando o mal desconhecido

S' esse vírus precisa ser vencido

Ficar em casa é muito mais seguro.








quarta-feira, 1 de julho de 2020

PRESENTE DE PAPAI NOEL

Aldemar Paiva, um alagoano buliçoso que resolveu contar em versos uma história que deveria ser conhecida em todo mundo por ser “real” e muito comum principalmente no Brasil dos desiguais. A história contada pelo poeta é muito doída, marcante e ainda expõe a ferida da desigualdade aberta, sagrando e produzindo miseráveis e famintos, imagens naturais no nosso meio. Uma mentira deslavada que de tão repetida ao longo da História fez com que o povo a absorvesse e a transformasse em destino, má sorte, desventura, infelicidade ou desdita. Mentira que destruiu gerações, escravizou, matou e feriu a alma do homem simples tão profundamente, que deixou marcas irremovíveis no cérebro dos já infernizados pela perversa desumanização sistêmica, responsável pela deficiência cognitiva programada – que o impede de admitir sem resistir: a pobreza e a submissão para uns e o poder e a abundância para outros.  
E foi num lance publicitário, no ano de 1931, no século passado, que a coca-cola usou a história de São Nicolau de Mira, um Bispo de origem Turca, nascido ai por volta de 280 d.C. que de acordo com a história, procurava proteger os mais carentes. Foi por causa dessa campanha, que Papai Noel adquiriu esse aspecto que conhecemos atualmente.
É consenso comum dizer – que a origem de Papai Noel é um elo que de fato está muito próximo ao aspecto humano de São Nicolau de Mira. Relata a história que São Nicolau de algum modo procurava fazer o bem e uma das maneiras para concretizar esse bem, era deixar algumas moedas próximas das chaminés das casas, daqueles que a ganância teima em dar-lhes nomes pejorativos de menos favorecidos. Esse ato de bem e caridade humana acontecia sempre à noite.
As histórias sobre os feitos generosos e realizados por São Nicolau de Mira dão uma dimensão de sua liberdade espiritual em favor dos humildes. Conta-se que um pai não possuía bens (dinheiro) suficientes para poder pagar os dotes de suas três filhas, o que cuidaria dizer que a família não tinha recursos para oferecer-lhes um casamento digno, honrado. Diante desse desalento moral imposto por regras de uma sociedade patriarcal insana, o pai em estado de sofreguidão resolveu conduzir as filhas para a prostituição. Porém, logo que tomou conhecimento da história das três jovens, São Nicolau resolveu atuar, tomou três saquinhos os encheu de moedas de ouro, conforme o valor dos dotes de cada filha, em seguida foi à casa da família pela madrugada, escalou o telhado e atirou os saquinhos com o ouro pela chaminé. Com essa atitude de São Nicolau, as jovens foram salvas da prostituição, e daí surgiu o mito do Papai Noel.   
Bispo de Mira
A sagração de Bispo da cidade de Mira aconteceu com São Nicolau ainda na juventude. A sua espiritualidade, caridade e sabedoria levaram-no a ser considerado por muitos que o admiravam como uma grande alma. De fato, São Nicolau exercia forte atrativo espiritual às pessoas, levava uma vida voltada à simplicidade, a humildade, a santidade. “Amava ao próximo como a si mesmo”. E, foi no afã de sua inabalável fé que promoveu ações de propagação e defesa do Evangelho nas regiões da Palestina e do Egito, sem nunca abandonar a cidade Mira.
Morte de São Nicolau
A história aponta que São Nicolau faleceu em 6 de dezembro do ano 326, na cidade que o vira nascer e muito amava, Mira. Seu túmulo tornou-se um local de peregrinação fervorosa; anos depois seus restos mortais deixaram a cidade de Mira na Turquia e foram transladados para a cidade de Bari, na Itália. Lá, até os dias de hoje, suas relíquias são motivos de grande veneração.  O culto a São Nicolau propagou-se por toda a Europa.
São Nicolau foi beatificado pela Igreja Católica pelos os grandes sinais que realizou. Muitos dos quais em favor dos pobres e desamparados. O Dia de São Nicolau é comemorado em 06 de dezembro, data de sua morte. Em virtude disto, muitas pessoas costumam montar as árvores de Natal nessa data. São Nicolau é o santo padroeiro da Rússia, da Grécia e da Noruega. Além disso, ainda é considerado o padroeiro dos estudantes.
Fontes de pesquisa sobre São Nicolau de Mira:
Em jornais, revistas, leituras em livros antigos e pesquisa na internet.


MONOLOGO PARA PAPAI NOEL

Aldemar Paiva - AL

Não gosto de você, Papai Noel...
Também não gosto desse seu papel
De vender ilusões à burguesia.
Se os garotos humildes da cidade
Soubesse do seu ódio à humanidade
Jogavam pedras na sua fantasia.

Você, talvez, nem se recorde mais,
Cresci depressa e me tornei rapaz
Sem esquecer, no entanto, o que passou...
Fiz-lhe um bilhete, pedindo um presente,
E a noite inteira eu esperei contente,
Chegou o sol e você não chegou.

Dias depois, meu pai pobre cansado,
Trouxe um trenzinho feio, enferrujado,
Que me entregou com certa hesitação.
Fechou os olhos e balbuciou:
- É pra você... Papai Noel Mandou...
- E se esquivou contendo a emoção...

Alegre e inocente, nesse caso,
Pensei que o meu bilhete com atraso,
Chegara às suas mãos no fim do mês.
Limpei o trem, dei corda, ele partiu,
Deu muitas voltas e meu pai sorriu
E me abraçou pela ultima vez.

O resto só eu pude compreender
Quando cresci e comecei a ver
Todas as coisas com realidade.
Meu pai chegou um dia e me disse, a medo:
- Onde é que está aquele brinquedo?
- Eu vou troca por outro na cidade.

Dei-lhe o trenzinho, quase a soluçar.
E como quem não quer abandonar
Um mimo que lhe deu quem lhe que bem,
Disse medroso: eu só quero ele...
Não quero outro brinquedo, quero aquele...
E por favor, não vá levar o meu trem.

Meu pai calou-se e pelo rosto veio
Descendo um pranto que ainda creio
Tão puro e santo só Jesus chorou.
Bateu a porta com muito ruído,
Mamãe gritou, ele não deu ouvido,
Saiu correndo e nunca mais voltou!

Você, Papai Noel, se transformou
Num homem que a infância arruinou,
Sem pai e sem brinquedo afinal,
Dos seus presentes não há um que sobre
Para a riqueza de um menino pobre
Que sonha o ano inteiro com Natal!

Meu pobre pai, doente e mal vestido,
Pra não me ver assim desiludido,
Comprou por qualquer preço uma ilusão...
Num gesto nobre, humano, decisivo,
Foi de longe pra trazer o lenitivo,
Roubando o trem do filho do patrão.

Pensei que viajara, no entanto,
Depois de grande, minha mãe, em pranto,
Contou que fora preso. E como réu,
Ninguém a absolvê-lo se atrevia.
Foi definhando, até que Deus, um dia,
Entrou na cela e o libertou pro céu.

















quinta-feira, 25 de junho de 2020

CONVERSA SOBRE PINTO DO MONTEIRO


Severino Lourenço da Silva Pinto (pinto do Monteiro) ou o bardo do cariri, ou simplesmente o gênio da arte de improvisar. Poeta que começou a versejar aos 25 anos de idade, em 1919, século 20. Inquieto como todo sertanejo na busca por melhores dias, enxerga um lenitivo como guarda do serviço contra a malaria, foi para o Amazonas em 1940. Por volta de 1946, foi para o Ceará, ai nesse Estado passa um tempo bem curta, em seguida muda-se para a cidade de Caruaru, no Estado de Pernambuco em 1947. Na capital do forró, Caruaru, a demora foi pouca, o vento do destino o empurra para cidade de Sertânia, ainda no Estado de Pernambuco, para se encontrar em definitivo com a fama que o arrebatara e o perseguiu até a sua morte em 28 de outubro de 1990 aos 95 anos de idade.
A Fama de Pinto do Monteiro não lhe trouxera bens ou propriedades, mas respeito a ponto de Rogaciano Leite, poeta que alcançou a extremidade da gloria com “Eulália”, passar a chamá-lo de mestre, como um servo obediente.
Pinto do Monteiro era a mais legitima expressão da poesia popular viva. Presença de espírito e raciocínio rápida armas destruidoras nos embates do verso. Esse homem que seduziu a inspiração, filha dileta da deusa da poesia e com ela construiu, com a sua simplicidade, versos carregados de uma beleza impar que só um espírito livre tem o direito de produzir.

Esteja ou não eu em casa
Cheque, entre e arme a rede;
Coma se estiver com fome,
Beba se estiver com sede,
Se quiser se balançar
Empurre o pé na parede.

Certa vez, Pinto, enfrentava numa cantoria, outra fera indomável, “Louro do Pajeú”. Como era seu hábito nas cantorias, jogar casca de banana para os adversários com o propósito de causar-lhes constrangimento diante da sala, Pinto resolveu então, testar se o experiente “louro” caia na sua arapuca. E não deu outra. “Louro” caiu. Porém, não se pode diminuir o extraordinário valor do vate do Pajeú, não; mas a casca de banana ficou na memória dos amantes do verso de Pinto, até os dias de hoje. Vejam:

“Pinto”

Eu saí de Caicó
E fui até a Tabira,
De Tabira pra Penedo,
De penedo à Guarabira
Chegando lá eu comi
Um mocotó de traíra.

“Louro do Pajeú”

Eu já ouvi muita mentira
De Adão até a Lor
De Lor até a Isaac
De Isaac até Jacó,
Mas nunca ouve que visse
Traíra com mocotó.

“Pinto”

Pois, eu saí de Caicó
E fui até a Guarabira
Lá vi uma vaca velha
Com o nome de traíra
Comi o mocotó dela
Diga que é minha mentira.

Pinto do Monteiro desfilou com seu talento pelo mundo da poesia com elegância e desenvoltura de um predestinado. Conhecia os caminhos do verso. Fazia-o com prazer e lavava a alma quando ouvia os aplausos da sala. Sabia que era imbatível, que ninguém o importunava na urdidura do verso! Era um deus versejando para encantar o sertão sofredor, esquecido pelas autoridades e atormentado pela falta de chuvas. Vejam a excelência desta décima.

Em dezembro começa a trovoada
Em janeiro o inverno principia,
Dão início a pegar a vacaria:
Haja leite, haja queijo, haja coalhada!
Em setembro começa a vaquejada
É aboio, é carreira, é queda e grito!
Berra o bode, a cabra e o cabrito;
A galinha ciscando no quintal,
O vaqueiro aboiando no curral;
Nunca vi um cinema tão bonito!

Noutro verso memorável aludindo a aurora depois de uma noite festiva animada por um violeiro, Pinto, trata do amanhecer no sertão “Se apagam os pirilampos” e em seguida narra os afazeres do cotidiano e por fim “se despede o violeiro, dando adeus, até um dia!” vejam a estrofe:

Quando é de manhãzinha,
Apagam-se os pirilampos,
O homem vai para os campos,
A mulher vai pra cozinha;
Sacode milho à galinha,
Se por acaso ela cria!
Canta o galo, o pinto pia,
Salta o bode no terreiro,
Despede-se o violeiro,
Dando adeus, até um dia!

Num estado de saudade antecipada ou talvez já sentido o peso da idade, o poeta imaginando conversar com a sua esposa, que a chama de velhinha carinhosamente, na estrofe, até parece que sugere, nesse caso, partir para o andar de cima antes dela. E como quem estar olhando à velha viola, a companheira dos embates gloriosos, com a qual torpedeava os poetas com seus versos arrebatadores, faz a seguinte recomendação.

Velhinha, quando eu morrer
Conserve a minha viola,
Bote ela numa sacola
E deixe o rato roer,
Barata dentro viver,
Morcego morando nela,
O cupim comendo ela
E ela perdendo o valor,
Só não deixe cantador
Bater mais nas cordas dela.

Estes versos se diluíram pelo universo do sertão, levados pelos sertanejos embriagados pelo puro vinho da poesia, para serem declamados nas conversas de matutos nos alpendres das fazendas, nos terreiros dos casebres pobres fincados nos mais longínquos recôncavos da terra que Deus deu ao homem.  Versos que andaram de boca em boca nas bodegas dos vilarejos, das cidades pequenas, nos forrós dos pés de serra e no acender das fogueiras para iluminar a alma desaquecida do homem livre que a ganância o fez escravo.

Para Pinto o dom de cantar é sagrado. Não importa se ganha ou não ganha dinheiro para o sustento, mas se alegrar e alegrar ao povo, fazendo-o feliz para “esperar o futuro, distrair o presente”. Eis a belíssima sextilha do poeta:

Eu não vim ganhar dinheiro;
Vim só beber aguardente,
Dar expansão às idéias,
Satisfazer essa gente,
Esperar pelo futuro,
Distrair com o presente.

Enfrentar Pinto no verso improvisado na era tarefa fácil. Seu espírito arredio, sua força imaginativa o deixava alerta para responder com uma força desproporcional as provocações dos poetas nas cantorias. Um poeta desavisado finda sua sextilha de forma infeliz. “quando eu for pro outro mundo/ vou lhe promover a galo...” Pinto paga o verso do poeta com uma sátira destruidora:

Se eu gozar desse regalo
Concedendo a Providencia,
Quando eu for pro outro mundo,
Havendo essa transferência
Você vai como galinha
Para a minha residência.

As estrofes que se seguirão abaixo darão a exata dimensão à verve do Pinto, que ao ciscar o terreiro da poesia, extraiu versos que se eternizaram na enciclopédia do povo ou de forma oral (por pessoas que estiveram nas cantorias e decoraram uma ou mais estrofes e depois saíram por ai declamando-as nas conversas e encontros informais pelas ribeiras) ou em forma de folhetos de cordel, por poetas que estiveram presentes ou então os criaram conforme narrativas populares sobre aquelas memoráveis cantorias. Nestes versos, percebe-se pela variedade dos temas que são fragmentos de momentos que a memória popular teima não esquecer-los. 

No tempo da mocidade
Eu também já fui vaqueiro,
Não tinha jurema grossa,
Mororó nem marmeleiro,
Fui cabra de vista boa
Negro do corpo ligeiro.

Eu admiro muito o tatu
Com traços no espinhaço,
Que a natureza fez
Sem ter régua nem compasso
E eu com compasso e régua
Tenho tentado e não faço.

A cascavel se confia
No veneno que produz,
Quem por ela for picado
Pode rezar pra Jesus,
Encomendar quatro coisas
Caixão, cova, vela e cruz.

Quem quiser subir na vida
Faça como o foguetão,
Bote uma vara no fundo
E se enrole de cordão
E vá se estourar no inferno
Que é lugar de ladrão.

Eu sou como a cascavel
Que não escolhe ninguém,
Ao se enrosca na vereda
Morde quem vai e quem vem
E quando dá o bote errado
Morre da raiva que tem.

Essa palavra saudade
Eu ouço desde criança,
Saudade de amor ausente
Não é saudade e lembrança,
Saudade só é saudade
Quando se perde a esperança.

Saudade é tudo e nada,
Saudade é como o perfume!
Eu só comparo a saudade
Com o peso do ciúme
Que a gente carrega o fardo
Mas não conhece o volume.

Gostei muito de mulher
No meu tempo de rapaz,
Mas depois que fiquei velho
A trouxa dobrou pra trás
Sentou-se em cima dos ovos
E a ponta cheirando o ás. 

Eu sou do tempo que
Quase tudo era de graça,
Pano se media por vara
Terra se media por braça
E o cabelo do bigode
Era uma letra na praça.

Mulher, animal cruel
Que quando ri para a gente
Fica mostrando somente
As pressas de cascavel
Esse animal infiel
Sorriu para mim um dia
Traiu minha fantasia
Com suas presas fatais
Mordeu e correu atrás
Só pra ver onde eu caia.

Escrevi uma parte do que ouvi do povo sobre o extraordinário filho de Monteiro, Paraíba. Tudo foi recolhido da enciclopédia popular oral, mas alguns dos versos aqui demonstrados podem ser comprovados como verdadeiramente da lavra do poeta do cariri paraibano.






segunda-feira, 15 de junho de 2020

QUEM ERROU???


A lei sempre vem do povo,
Mas o parlamento a enfeita
Com melindres entre linhas
De forma queda, suspeita
E quando o povo descobre
A merda, enfim, está feita.

Nunca! Não entorte o direito!
Empregue-o com segurança,
Justiça, enfim, só é justiça
Se lhe houver confiança
Ou quando julgar um rico
Sem lhe pender a balança.

Não transforme o bom direito
Em um veneno mortal,
Nem estimule a justiça
A se tornar serviçal
Às cavilações do injusto
Levadas ao tribunal.

Faça justiça com todos,
Não promova divisão!
Quem divide não constrói
Quem constrói estende a mão
Quem dar a mão pede paz
Quem quer paz tem o perdão.

A lei, o direito, a justiça
Enastram, mas não são iguais,
Nem toda lei faz justiça
Nem protege os desiguais,
Nem a justiça é o direito
Nas relações factuais.

A igualdade sem justiça
E direito sem verdade
A lei espoliando o fraco
Roubando-lhe a dignidade
Negociando sentenças
vendendo a sociedade.


João Pessoa – PB, 15 de junho de 2020


Mário Bento de Morais
















quinta-feira, 11 de junho de 2020

UM DIA FUI 12 DE JUNHO


Pela idade foi vencida
E sem dengos dos amantes,
Lembra as noitadas picantes
Que se permitiu na vida.

Tinha curvas torturantes,
Que a fazia preferida
A deusa viva, esquecida,
Agora depois de um antes.

Essa mulher mal trajada
Já foi muito desejada
No auge de sua beleza.

Hoje, exclusiva do nada
Tem a face amargurada
Livro aberto da tristeza.


João Pessoa – PB, 11 de junho de 2020


Mário Bento de Morais

segunda-feira, 8 de junho de 2020

OS ESPECIALISTAS


O1 – Hoje, eu ouvi pelo Rádio e depois assisti pela televisão, aqui em João pessoa, dois “grandes” âncoras – segundo suas próprias análises carregadas dos impulsos de André Breton – arguirem expressivos zelos às suas autoestimas poderosas junto ao público ouvinte do rádio e por tabela os telespectadores. Nesse cenário orgulho narcisista, adverte a psicologia em seus estudos: a autoestima é uma apreciação particular acerca do eu próprio e está potencialmente relacionada ao progresso do ego. Aurélio escreve: a autoestima é uma qualidade de quem se valoriza, está satisfeito com seu ser, com sua forma de pensar ou com sua aparência física, expressando confiança em suas ações e opiniões.
02 – Pois bem, esses dois astros da comunicação paraibana, propuseram a volta ao “trabalho para que o povo não morra de fome”, ou seja, abolir o isolamento social – isso incitou as pessoas a não colaborarem com as recomendações das autoridades – no entanto, esses mestres do caos não indicaram uma solução para o enfrentamento à pandemia. Porém, aqui cabe uma pergunta: com qual autoridade ou em nome de quem se pode, criar protocolo ou tecer comentário a uma área rigorosamente científica, a respeito de como o povo deve se comportar diante do desconhecido? Esses gênios da raça sem nenhum mérito acadêmico na área de saúde pública ousaram desafiar com argumentos esdrúxulos e sem cognição semiológica as recomendações propostas pela Organização Mundial de Saúde OMS. Ambos não têm currículo doutrinal para tratarem de um assunto extremamente relevante como esse que sonda as vias tortuosas e complexas da medicina sobre a covid19.
03 – Essa frase (se não voltar ao trabalho o povo vai morrer de fome) soa muito apelativa e atinge o lenho do processo psicológico consciente do cidadão, que sem arrimo às suas antigas mazelas, não enxerga racionalidade no trato para um combate eficaz à transmissão vertiginosa desse vírus que evoluiu bastante aqui no Brasil. O tema em evidência embora pulsátil, interessante pela atualidade, ressalva-se qualquer reflexão ou orientação ao auspicioso conhecimento científico. E ninguém, nesse caso específico, tem singular direito de compor com o uso da imaginação raciocínio descolado do isolamento social que atende as recomendações protocolares dos maiores centros de estudos epidemiológicos do mundo.
04 – A mediocridade escandalosa há muito exibida aqui no Brasil adquiriu em escala mundial, exponencial notoriedade. Perdemos o brilho mágico da alegria, o protagonismo do belo e o senso de País. Um feito que a História marcará nos seus anais como “os anos vividos no País dos mortos”. Somos um povo sem rumo, sem destino. Vagamos no deserto da ignorância, do descaso, da incompetência. Pra onde vamos? O que desejamos deixar em fim como legado para os nossos iguais? Responda... se for homem!   

João Pessoa – PB, 08 de junho de 2020

Mário Bento de Morais









terça-feira, 2 de junho de 2020

NA ETERNIDADE


Sim, eu sou a constituinte.
Sigo o Brasil brasileiro,
Não tenho sangue estrangeiro,
Pra exibir como requinte!
Sou sensato sem acinte
A lei maior da Nação,
Respeito sem discussão
Os sonsos sem disciplina,
Mas tudo que a vida ensina
Deve servir de lição.

O passado nos condena,
Alemanha grande espelho!
A história um bom relho
Para nos bater sem pena.
O poder é uma hiena
Quase sempre solipsista,
D’um empirismo simplista,
Porém, soberbo imprudente,
Um infeliz delinquente
Que a delinquente conquista.

Esse poder delinquente
Cria mundos abissais
Quando age em seus currais
Como um deus onipresente
Ilimitado, exigente,
Nédio em céu de vesanos  
Inconsequentes, urbanos
Parvos de becos soturnos
De incoerentes diurnos
Que alimentam os tiranos.

Quando o egoísmo se  flama
Para um excêntrico eterno,
Vem um rigoroso inverno
Inunda a praça de lama.
Rir-se o fátuo do drama
Da Mãe da infâmia exposta,
Que em desespero aposta
Na morte por recompensa
Da vida pagando a crença
Da mentira sem resposta.

Vai o pascácio grassando
Autoimune sob aplausos
Evidenciando causos
Na carreira de desmando.
Os enredos registrando
Fatos à posteridade,
Negativos à verdade
Depois reclama da sorte
Sabendo que a pior morte
É morrer na eternidade.



João Pessoa – 01 de junho de 2020


Mário Bento de Morais