quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A PÉROLA DOS POVOS

A educação nunca deixou de ser um instrumento revolucionador e transformador de realidades adversas. Sempre esteve ao dispor daqueles que nela enxergam a mola propulsora do desenvolvimento social, cultural e econômico. Com começo meio e..., em sua aplicação, esse perfume dos deuses, tem colocado nações e povos atrasados na vanguarda do mundo moderno.
Entorpecidas, "pessoas" ainda imprimem os mais bestiais conceitos quanto os milagres da santa educação. Outras mais ranzinzas colocam feições puramente religiosas, que só existem na religiosidade delas - inclusive autoridades - para nodoarem com necedades nefastas, a loucura do sábio, o fermento do espírito, o maná da liberdade, o sal das almas.
A educação alimenta faminto, modela cidadão, nivela classe, destrói império, sepulta ignorância. É um complexo de diferentes ações que tem por objeto o espírito humano, as quais talham homens e mulheres às delícias luminosa da instrução; um patrimônio que "o ladrão não rouba nem as traças roem".
No Brasil, formulam-se as mais deslavadas teses em relação à aplicação dos recursos na educação. Estamos a anos luz da educação desejada. E não venham com alegações medíocres, esfarrapadas, inverdades mal elaboradas tentando nos convencer da falta de vergonha dos nossos governantes.
O que mais impressiona a gente, aqui no Brasil, é o descompasso entre os governos e os cidadãos. Difícil é encontrar um (filho do povo) que não seja consciente das suas obrigações, dos seus deveres; agora, governos com essas grandezas pense numa dificuldade para encontrá-los. Isso porque, geralmente são incompetentes, priorizam as carreiras políticas, as veniagas de bastidores, a uma gestão obreira que atendam os anseios da população.
Para desenharmos um quadro bem mais esplêndido, vejamos: no governo de um sublime presidente da nossa republica - de cada real liberado pelo ministério da educação - vibrem, apenas vinte centavos chegavam à ponta, ou seja, no aluno. Isso já demonstra claramente, a necessidade de uma revolução urgente que atinja o núcleo da célula da educação cidadã, e seja mais rigorosa quando invadir o âmago das administrações e impiedosa com a consciência dos gestores.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A CASA DO ÉBRIO

JOÃO BATISTA DE SIQUEIRA - CACÃO, deixou uma vasta produção literária. Cantou as sete grandezas, segundo seus admiradores (a natureza, a Virgem Maria, o amor, a pobreza, a caridade, a verdade e a justiça). Conhecedor das dores do povo, das fraquezas, das angustias, dos distúrbios comportamentais do individuo na sociedade e das agruras. Era realmente um deus ensinando aos seus servos a compreender o mundo em que vive. Vejam o poema.
Era um casebre tristonho
De cujas paredes tortas
Vinha um rangido enfadonho
Dos gonzos de duas portas
As telhas já nodoadas
Duas roletas deitadas
Numa camarinha escura
O vento, quando passava
Parecia que falava
Nas frinchas das fechaduras.

Na parede do nascente
Um banco desmantelado
Um garrafão de aguardente
Que ainda havia sobrado
Junto ao quarto de dormida
Cera que foi derretida
Do resto de algumas velas
No chão, marcas de escarros
Cacos de vidros, cigarros
Rolavam por cima delas.

Uma rede remendada,
Outra parte descosida
Em um torno pendurada
Pela fumaça tingida
De um lado havia um cambito
Onde um couro de um cabrito
Sobre um arame pendia
Mais adiante, um jirau
Junto à travessa de um pau
Onde um morcego vivia.

Uma corda, uma rodilha
Bem acima de um caixão
Um pote, numa forquilha
Vazava junto ao fogão
Um gato cego e doente
Deitado sobre um batente
Por certo sentia sono
De fora, um jumento olhava
O seu olhar revelava
A malvadez do seu dono.

Uma vara de ferrão
A banda de uma tigela
Meio quilo de sabão
Embrulhado dentro dela
A banda de um cobertor
Atada em um armador
Onde havia um candeeiro
Uma camisa de saco
Mostrava por um buraco
A tampa dum tabaqueiro.

Uma cadeira quebrada
As pernas de um tamborete
Uma foice enferrujada
Encabada num cacete
Ao lado de uma cangalha
Havia um chapéu de palha
Com um remendo de pano
Um tronco de mandioca
Um anzol numa taboca
Pra pesca do fim de ano.

Havia armado um quixô
Encostado a um baú
Costurado com cipó
Todo feito a couro cru
Num recanto separado
Conservava-se embrulhado
O braço de uma viola
Zelava por tradição
Que seu pai foi campeão
De cantar pedindo esmola.

Uma calça de azulão
Perto da porta do meio
A bainha de um facão
Balançava em um esteio
Numa mesinha na sala
Havia cascas de bala
Um bisaco e uma garrucha,
A manga de um paletó
E um galho de mororó
Guardado pra tirar bucha.

Cinco ovos de galinha,
Um punhado de limão
Uma cuia com farinha
Sobre a boca de um pilão
Uma rolinha pelada
Numa gaiola quebrada
Junto à porta dormia
Em frente, um cão cochilava
Com certeza decorava
Sua cruel profecia.

Um pedaço de perneira
Um serrote e uma enxó
Tudo dentro duma esteira
Amarrada em um cipó
Um candeeiro sem asa
E num recanto da casa
Quatro cartas de baralho
Em um barbante, num prego
Atada por um nó cego
Estava preso um chocalho

A canela de um veado
Uma ponta de carneiro
Em um gibão amarrado
Um facho de marmeleiro
Em frente havia um baú
Bem apoiado no chão
Sobre sua tampa aberta
Mostrava uma prova certa
Donde guardava o carvão.

Abaixo de um travesseiro
Um pouco de sola em dobra
Dada por um curandeiro
Pra mordedura de cobra
Ais um cachimbo de barro
Que o mau cheiro de sarro
Chegava até o cozinho
Em um recanto, num banco
Um sapato preto e branco
Que recebeu de um padrinho.

Muitas formigas pequenas
Umas vinhas, outras iam
E assim muitas centenas
Entre os torrões se escondiam
Duas varas emendadas
Numa parede pregadas
Quase na forma de uma “vê”
Se o vento balançava, vinha
Do terreiro ou da cozinha
Um cheiro não sei de quê.

Uma criança chorava
Juntinho da mãe doente
Que com esforço lhe olhava
Mas já com ar diferente
O rosto banhado em pranto,
Deitado sobre um recanto
Numa parece encostada
A face triste e sóbria
Que durante aquele dia
Não tinha comida nada.

Depois, um homem barbado
Entrava cambaleando
Num andar lento e pesado
Exasperado falando
Um ferimento num braço
Se ia aumentar o passo
Botava a mão na parede
Sorria e depois chorava
Pelos seus traços mostrava
Sinais de quem tinha sede.

domingo, 6 de novembro de 2011

JOÃO BATISTA DE SIQUEIRA - CANCÃO


João Batista de Siqueira – deus da literatura popular, o imortal Cancão. Nasceu no dia 12 do mês da “Virgem Maria”, do ano de 1912, no sítio Queimadas município de em São José do Egito, solo pernambucano. Ali passou toda sua existência. Em 1950 deixa de cantar e passa a viver recluso no seu reino encantado. Faleceu no dia 5 de julho de 1982, em seu lindo berço. No ano de sua morte houve em Patos – PB, um festival de violeiros. As maiores duplas do Brasil vieram participar do belíssimo evento. Uma dupla em particular despertou o entusiasmo do público após o anuncio do mote para sete sílabas. Morrei um cancão sem penas/deixando pena pra nós”, foi uma apoteose! E para coroar o mote o poeta Severino Ferreira (in memória) teve a felicidade de improvisar esta maravilha.

“A morte tomou chegada

E dele calou a voz,

Antigamente ele era

Um dos grandes rouxinóis

Pra ele rezei novenas

Morreu um cancão sem penas

Deixando pena pra “nós”. (fragmento)

CANCÃO é autor do hino SONHO DE SABIÁ. O poema conta a tristeza de um sabiá após cair em uma armadilha, um alçapão. Preso em uma gaiola o passarinho entristece e um dia sonha com a liberdade. O poeta usa todo seu potencial de matuto amante da natureza para denunciar as atrocidades do homem ao “cantor da mata. Vejam fragmento da ultima estrofe. “Assim o cantor da mata/ferido da sorte ingrata/ no outro dia morreu” Agora vamos ao poema.

Um sabiá diligente

Voou pela vastidão

Mas por inexperiente

Caiu em um alçapão

Depois de aprisionado

Ficou mais martirizado

Pensando no seu filhinho

Implume, sem alimento

Exposto à chuva e ao vento

Sem poder sair do ninho.


Deram-lhe por seu abrigo

Uma pequena gaiola

No casebre de um mendigo

Que só comia de esmola

Só vivia cochilando

Com certeza imaginando

Sua liberdade santa

Ia cantar, não podia

Que sua voz se perdia

Logo ao sair da garganta.


Tornou-se a pena cinzenta

Em seu profundo castigo

Na Salete fumarenta

Da casa do tal mendigo

Sempre triste arrepiado

Nesse viver desolado

Ia um mês, vinha outro mês

Assim completou um ano

Sentindo seu desengano

Nunca cantou uma vez.


Depois, uma tarde inteira

O pobre do passarinho

Sonhou que ia a palmeira

Onde tinha feito o ninho

Olhava, em frente, as campinas

Via por trás das colinas

A natureza sorrindo

Ao sentir a liberdade

Pensou ser realidade

Sem saber contou dormindo.


Depois, sonhou que voltava

À terra dos braunais

Por onde sempre cantava

Ais outros sabiás

Voava nas ribanceiras,

Pousava nas laranjeiras

Olhando o clarão do dia

Voava através do monte,

Voltava a beber na fonte

Que todas manhãs bebia.


No sonho via as favelas

Criadas nos carrascais

Voou, baixou, pousou nelas

Cantou os seus madrigais

Voltou, colheu os orvalhos

Que gotejavam dos galhos

Dos frondosos jiquiris

Contente abria a plumagem

Pra receber a bafagem

Das manhãs do seu país.


Foi à terra dos palmares

Atravessou toda flora

Voou por todos lugares

Que tinha cantado outrora

Passou pelos mangueirais

Entre os outros sabiás

Cantou sonora canção

O seu som melodioso

Estava mais pesaroso

Devido a sua emoção.


Viu a vinda do inverno

Nos quadrantes da paisagem

Ouviu o sussurro terno

Do bulício da folhagem

Cantou todo arrebol,

O brilho morno do sol

Morrendo nos altos cumes

Sentia, quando cantava

Que seu coração chorava

Com mais tristeza e queixumes.


Sonhou catando sementes

Num campo vasto e risonho

Sentia-se tão contente

Que sonhou que fosse um sonho

Olhava pra vastidão

Tocava em seu coração

Um regozijo profundo

Toda delicia sentia

Às vezes lhe parecia

Vivendo fora do mundo.


Voou por entre os verdores

Atravessou as searas,

Cantou pelos resplendores

Das manhãs frescas e claras

Passou pelo campo vago,

Bebeu das águas do lago,

Pousou sobre um arvoredo,

Penetrou num bosque escuro,

Ai sonhou um futuro

Tão triste que teve medo.


Depois, sonhou que estava

Trancado em uma gaiola

Ouvindo alguém que cantava

Na porta, pedindo esmola

Ao despertar de momento

Reparou seu aposento,

Ouviu falar o mendigo

Fechou os olhos pensando

Sentiu seu íntimo chorando

No rigor do seu castigo.


Ainda em vão procurava

Sair daquela prisão

Seu olhar denunciava

Piedade e compaixão

Ao pensar na liberdade

A mais pungente saudade

Devorava o peito seu

Assim, o cantou da mata

Ferido da sorte ingrata

No outro dia morreu.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

ESMOLA PRA SÃO JOSÉ

Obra prima de um dos gênios da Literatura de Cordel, o campinense Zé Laurentino. Essa pérola traz uma lição que deve ser divulgada nas escolas e nos meios de comunicação do Brasil. Zé, como ninguém soube passar, creio o maior de todos os ensinamentos, o respeito. Portanto, podem se deliciarem com esse tesouro da lavra de um grande Zé.
Têm certas coisas seu moço
Que de bom gosto eu não faço
É dá esmola a quem pede
Com santo embaixo do braço.

Pois eu acho que os santos
Não têm muita precisão
Afinal eu nunca vi
Um santo comer feijão.

Mas por arte de pecado
Ou por minha pouca fé
Todo dia lá em casa
Passa um velho andando a pé
Por sinal muito feliz
Chega a minha porta e diz
Esmola pra São José!

E o diabo da mulher
Que é muito da alcoviteira
Nunca vi uma mulher
Que não seja rezadeira
Adquire um tanto ou quanto
Corre e vai dá ao santo
Pra o velho fazer a feira.

Muitas vezes logo cedinho
Se eu vou tomar o café
Quando dou fé é o grito
Esmola pra São José!

Isto foi me enchendo o saco
Cada dia enchendo mais
Um dia cheguei em casa
Com a braguilha pra trás.

Sentei num sepo de pau
Tomei uma de rapé
E ouvi a voz lá na porta
Esmola pra São José!

E para dar a esmola
A mulher se remexeu
Mas eu lhe gritei não vá
Pois quem vai hoje sou eu.

Quando eu cheguei a porta
O velho teve um espanto
E eu disse vá trabalhar
Que eu não dou esmola a santo
Troque o santo numa enxada
Deixe de ser preguiçoso
Pois santo não quer esmola
Deixe de ser presunçoso.

O velho me olhou e disse:
- Que São José te perdoe
E se Deus tiver te touvindo
Quero que ele te abençoe.

E que cubra tua casa
De paz, amor, união
Sossego, prosperidade
Conforto e compreensão.

E se um dia o senhor
Precisar deste velhinho
Ele não mora tão perto
E eu lhe ensino o caminho.

Fica no sítio Cauã
Onde já morou meu pai
A direita de quem vem
A esquerda de quem vai.

Se um dia o senhor passar
Por ali com precisão
De fome o senhor não morre
Também não dorme no chão.

Quando o velho disse aquilo
Eu senti naquele instante
Como se eu fosse uma formiga
Sob os pés de um elefante.

Tava com as pernas tremendo
Digo e não peço segredo
Que o velho deu-me uma pisa
Sem me tocar com o dedo.

Eu com tanta ignorância
Ele tanta mansidão
Fez eu pagar muito caro
A falta de educação.
Então naquele momento
Eu gritei por Salomé
Mandei trazer pra o velhinho
Uma xícara de café
E contando o meu dinheiro
Só encontrei um cruzeiro
Dei todinho pra São José.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

VOCÊS SE LEMBRAM?

Aos três filhos da Fazenda Santa Fé:
Marluce, Chico e Marlene

Ás quatro da manhã de todos os dias a fazenda santa fé, no município de São Mamede – PB despertava com um aboio suave e solene do vaqueiro para iniciar a celebração do ritual da ordenha. De repente uma orquestra de chocalhos com acordes frementes e desafinados tilintava num musical ensurdecedor aos ouvidos refinados, mas angelical e sublime aos ouvidos rústicos, acostumados à dureza das quebradas do paraíso chamado sertão. Na porteira do curral a bezerrada agitada esbarrava-se num frenesi constante, a ansiedade a atormentava e a espera a tornava impaciente até o grito do vaqueiro: “estreliiinnnha” (era o nome da vaca que ia ser arreada à ordenha). Mãe e filhote simultaneamente respondiam num mugido como se algo sensorial as estimulasse e logo se aproximavam da porteira: a mãe para receber a cria e oferecer-lhe as tetas intumescidas de leite; a cria na intenção ingênua de banquetear-se com o manjar da vida, o leite sagrado! Num toque rápido o vaqueiro gira a cravelha da porteira, os gonzos ressequidos e oxidados pela ação do tempo, soltavam um ringido cansado acompanhado de um apelo sonoro quase sepulcral para anunciar o fim da tortura humilhante do chiqueiro! O filhote em alvoroço adentrava no curral e logo se deparava com a sua mãe e às pressas buscava as tetas. Faminto e atraído pelos eflúvios da fonte da vida o que lhe causava forte indício de aflição, o bezerrinho tentava ao máximo tirar proveito desse momento: abanava a calda, batia as patas contra o chão de estrume, mudava de lado e com movimento alucinado desferia cabeçadas contra a panela de úberes forçando o apojou. Ali ao lado e de pé, o vaqueiro pausadamente, começava a prender as pernas da vaca, ou seja, arriá-la: enquanto isso o lactente se esbaldava nas tetas. Todavia, a experiência do vaqueiro permitia-lhe cronometrar mentalmente o tempo exato para afastá-lo da mamada – o que logo acontece. Com o arreador nas mãos, o ordenhador exímio, passava-o em torno do pescoço do vitelo e o prendia ao corpo da mãe (na altura superior do braço direito) para proceder à ordenha. Em seguida se assentava sobre um banquinho tosco de madeira, e num bote certeiro alcançava a calda inquieta da protegida dos “vedas” e com a vassoura desta limpava as tetas e depois a prendia entre o arreador e a sua perna. Por último, com uma das mãos tomava o “vaso de leite” pela asa; colocava-o entre os joelhos curvados, acomodava-o a contento e com as duas mãos sugava as tetas túmidas do divino liquido. Aos poucos se aproximava o fim da ordenha daquele dia. O vaqueiro olhava constantemente em direção a uma casinha de sapê sobre o alto próximo ao curral. Lá estava a sua amada (Severina Lucena de Morais). A família havia aumentado desde a primavera de 1941, agora já eram três. Três belas crianças fortes, saudáveis e de uma beleza infinitamente sertaneja. O vaqueiro ainda pensava nessas coisas quando ouve: pai tem leite? Era Marluce, Chico e Marlene. Iam tomar leite no curral. Assim começava a primeira tarefa do dia do vaqueiro – Amaro Bento de Morais.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A PRIMAVERA DA IDADE

Maria Marluce de Morais
A primavera, certamente é a mais especial de todas as estações do ano. Creio ser o período em que Deus tira férias no céu e vem à terra para contemplar o esplendor de sua belíssima obra. E para agradar ao Mestre dos mestres, ao Deus dos deuses a natureza santamente torna visíveis as flores de todas as espécies e cores, fortalecendo, portanto, a sentença dos antigos: “a terra é o jardim onde Deus repousa”. Os dias desta estação são mais longos e calorosos, mesmo assim sopra gentilmente uma brisa suave, convertendo-a na mais sublime das estações. E foi assim, nesse cenário multicor que na primavera de 1941, precisamente no dia 3 de dezembro, nascia na fazenda santa fé, município de São Mamede, na filha das Neves, sem luzes para não ofuscar-lhe o brilho, a primeira estrela vésper do vaqueiro, que logo se tornaria uma constelação no céu de Amaro Bento de Morais e de Severina Lucena de Morais. Essa estrela trazia na pele o albor primoroso das nuvens, a maciez e o brilho cintilante da seda, a suavidade diva dos anjos.
Levada a pia batismal a pequena recebe o nome de “Maria”, como justa homenagem a Senhora do amor, a Esposa de Deus, a Mãe de Jesus. Reconhecido o prenome “Maria” diante de Deus e dos homens, acrescentam-lhe ainda um segundo o de “Marluce” para depois finalmente, adotar o de família “Morais”. A pequena de sorriso fácil medra livre como um arroio cristalino entre dois montes sob o sol causticante do sertão rude e áspero. Contudo, nesse contraste surreal entre o feio e o belo, o primitivo e o tosco; fluiu para o esplendor da vida e a glória de Deus, Maria Marluce de Morais. A sertanejinha criada no meio rústico, fadadas as agruras de uma terra quase selvagem, alcança prodigiosamente a benevolência da natureza. E como dádiva a mãe de todos, conserva na florzinha matuta linhas profundas e simétricas da beleza européia e o pendor sereno dos caboclos do sertão. Com um olhar bem detido, podemos perceber que lhe aflora do rosto bem delineado traços aristocráticos, e fundindo-se a estes, nas atitudes de criança, embora de forma involuntária, por assim dizer, modos inerentes a nobreza.
E foi nesse mundo real e quase imaginário, onde a razão e o amor, por motivos diversos estraçalham impiedosamente vidas e sonhos, projetos e ilusões; mas que por designo da força criadora dos seres: você nasceu cresceu e vive, como uma deusa que descobriu o elixir da longevidade e o conservante da beleza, a estrela vésper do vaqueiro da fazenda santa fé, Maria Marluce de Morais.
Aqui vão os parabéns de todos os seus irmãos e irmãs e a benção santa de Amaro Bento de Morais e de Severina Lucena de Morais.