quarta-feira, 23 de novembro de 2011
A PÉROLA DOS POVOS
terça-feira, 8 de novembro de 2011
A CASA DO ÉBRIO
domingo, 6 de novembro de 2011
JOÃO BATISTA DE SIQUEIRA - CANCÃO
João Batista de Siqueira – deus da literatura popular, o imortal Cancão. Nasceu no dia 12 do mês da “Virgem Maria”, do ano de 1912, no sítio Queimadas município de em São José do Egito, solo pernambucano. Ali passou toda sua existência. Em 1950 deixa de cantar e passa a viver recluso no seu reino encantado. Faleceu no dia 5 de julho de 1982, em seu lindo berço. No ano de sua morte houve em Patos – PB, um festival de violeiros. As maiores duplas do Brasil vieram participar do belíssimo evento. Uma dupla em particular despertou o entusiasmo do público após o anuncio do mote para sete sílabas. Morrei um cancão sem penas/deixando pena pra nós”, foi uma apoteose! E para coroar o mote o poeta Severino Ferreira (in memória) teve a felicidade de improvisar esta maravilha.
“A morte tomou chegada
E dele calou a voz,
Antigamente ele era
Um dos grandes rouxinóis
Pra ele rezei novenas
Morreu um cancão sem penas
Deixando pena pra “nós”. (fragmento)
CANCÃO é autor do hino SONHO DE SABIÁ. O poema conta a tristeza de um sabiá após cair em uma armadilha, um alçapão. Preso em uma gaiola o passarinho entristece e um dia sonha com a liberdade. O poeta usa todo seu potencial de matuto amante da natureza para denunciar as atrocidades do homem ao “cantor da mata. Vejam fragmento da ultima estrofe. “Assim o cantor da mata/ferido da sorte ingrata/ no outro dia morreu” Agora vamos ao poema.
Um sabiá diligente
Voou pela vastidão
Mas por inexperiente
Caiu em um alçapão
Depois de aprisionado
Ficou mais martirizado
Pensando no seu filhinho
Implume, sem alimento
Exposto à chuva e ao vento
Sem poder sair do ninho.
Deram-lhe por seu abrigo
Uma pequena gaiola
No casebre de um mendigo
Que só comia de esmola
Só vivia cochilando
Com certeza imaginando
Sua liberdade santa
Ia cantar, não podia
Que sua voz se perdia
Logo ao sair da garganta.
Tornou-se a pena cinzenta
Em seu profundo castigo
Na Salete fumarenta
Da casa do tal mendigo
Sempre triste arrepiado
Nesse viver desolado
Ia um mês, vinha outro mês
Assim completou um ano
Sentindo seu desengano
Nunca cantou uma vez.
Depois, uma tarde inteira
O pobre do passarinho
Sonhou que ia a palmeira
Onde tinha feito o ninho
Olhava, em frente, as campinas
Via por trás das colinas
A natureza sorrindo
Ao sentir a liberdade
Pensou ser realidade
Sem saber contou dormindo.
Depois, sonhou que voltava
À terra dos braunais
Por onde sempre cantava
Ais outros sabiás
Voava nas ribanceiras,
Pousava nas laranjeiras
Olhando o clarão do dia
Voava através do monte,
Voltava a beber na fonte
Que todas manhãs bebia.
No sonho via as favelas
Criadas nos carrascais
Voou, baixou, pousou nelas
Cantou os seus madrigais
Voltou, colheu os orvalhos
Que gotejavam dos galhos
Dos frondosos jiquiris
Contente abria a plumagem
Pra receber a bafagem
Das manhãs do seu país.
Foi à terra dos palmares
Atravessou toda flora
Voou por todos lugares
Que tinha cantado outrora
Passou pelos mangueirais
Entre os outros sabiás
Cantou sonora canção
O seu som melodioso
Estava mais pesaroso
Devido a sua emoção.
Viu a vinda do inverno
Nos quadrantes da paisagem
Ouviu o sussurro terno
Do bulício da folhagem
Cantou todo arrebol,
O brilho morno do sol
Morrendo nos altos cumes
Sentia, quando cantava
Que seu coração chorava
Com mais tristeza e queixumes.
Sonhou catando sementes
Num campo vasto e risonho
Sentia-se tão contente
Que sonhou que fosse um sonho
Olhava pra vastidão
Tocava em seu coração
Um regozijo profundo
Toda delicia sentia
Às vezes lhe parecia
Vivendo fora do mundo.
Voou por entre os verdores
Atravessou as searas,
Cantou pelos resplendores
Das manhãs frescas e claras
Passou pelo campo vago,
Bebeu das águas do lago,
Pousou sobre um arvoredo,
Penetrou num bosque escuro,
Ai sonhou um futuro
Tão triste que teve medo.
Depois, sonhou que estava
Trancado em uma gaiola
Ouvindo alguém que cantava
Na porta, pedindo esmola
Ao despertar de momento
Reparou seu aposento,
Ouviu falar o mendigo
Fechou os olhos pensando
Sentiu seu íntimo chorando
No rigor do seu castigo.
Ainda em vão procurava
Sair daquela prisão
Seu olhar denunciava
Piedade e compaixão
Ao pensar na liberdade
A mais pungente saudade
Devorava o peito seu
Assim, o cantou da mata
Ferido da sorte ingrata
No outro dia morreu.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
ESMOLA PRA SÃO JOSÉ
Que de bom gosto eu não faço
É dá esmola a quem pede
Com santo embaixo do braço.
Pois eu acho que os santos
Não têm muita precisão
Afinal eu nunca vi
Um santo comer feijão.
Mas por arte de pecado
Ou por minha pouca fé
Todo dia lá em casa
Passa um velho andando a pé
Por sinal muito feliz
Chega a minha porta e diz
Esmola pra São José!
E o diabo da mulher
Que é muito da alcoviteira
Nunca vi uma mulher
Que não seja rezadeira
Adquire um tanto ou quanto
Corre e vai dá ao santo
Pra o velho fazer a feira.
Muitas vezes logo cedinho
Se eu vou tomar o café
Quando dou fé é o grito
Esmola pra São José!
Isto foi me enchendo o saco
Cada dia enchendo mais
Um dia cheguei em casa
Com a braguilha pra trás.
Sentei num sepo de pau
Tomei uma de rapé
E ouvi a voz lá na porta
Esmola pra São José!
E para dar a esmola
A mulher se remexeu
Mas eu lhe gritei não vá
Pois quem vai hoje sou eu.
Quando eu cheguei a porta
O velho teve um espanto
E eu disse vá trabalhar
Que eu não dou esmola a santo
Troque o santo numa enxada
Deixe de ser preguiçoso
Pois santo não quer esmola
Deixe de ser presunçoso.
O velho me olhou e disse:
- Que São José te perdoe
E se Deus tiver te touvindo
Quero que ele te abençoe.
E que cubra tua casa
De paz, amor, união
Sossego, prosperidade
Conforto e compreensão.
E se um dia o senhor
Precisar deste velhinho
Ele não mora tão perto
E eu lhe ensino o caminho.
Fica no sítio Cauã
Onde já morou meu pai
A direita de quem vem
A esquerda de quem vai.
Se um dia o senhor passar
Por ali com precisão
De fome o senhor não morre
Também não dorme no chão.
Quando o velho disse aquilo
Eu senti naquele instante
Como se eu fosse uma formiga
Sob os pés de um elefante.
Tava com as pernas tremendo
Digo e não peço segredo
Que o velho deu-me uma pisa
Sem me tocar com o dedo.
Eu com tanta ignorância
Ele tanta mansidão
Fez eu pagar muito caro
A falta de educação.
Eu gritei por Salomé
Mandei trazer pra o velhinho
Uma xícara de café
E contando o meu dinheiro
Só encontrei um cruzeiro
Dei todinho pra São José.